Última Ceia

Última Ceia

Miska estava sentada no tapete da sala, com um travesseiro dobrado estrategicamente sob ela, um recurso improvisado para amenizar a dureza do chão. O sono, naquela noite, parecia um visitante relutante, então ela decidiu simplesmente esperar acordada, deixando que o cansaço viesse por conta própria, no tempo dele.

Pegou o controle remoto e ligou a televisão, zapeando até cair em um canal qualquer — aleatório o suficiente para não exigir atenção, mas curioso o bastante para não parecer perda de tempo. Parou num daqueles canais especializados em documentários sobre crimes reais. Não era exatamente seu gênero favorito, mas havia algo ali, talvez o tom grave da narração, talvez a quietude da casa amplificando cada palavra, que a deixou presa. Havia um certo conforto estranho naquela combinação de silêncio doméstico e tensão televisiva.

Por alguns minutos, ela assistiu passivamente. Depois, seus olhos se desviaram da tela e percorreram a cozinha. Foi inevitável. A pilha de louça suja ainda estava lá, como uma acusação silenciosa. Pratos empilhados, copos engordurados, talheres misturados de qualquer jeito. Tudo fruto de um dia inteiro de adiamentos.

"Depois eu resolvo isso."
"É só mais tarde."
"Quando eu levantar pra ir ao banheiro, talvez."

Miska havia se alimentado de desculpas durante horas, como se elas fossem o suficiente para empurrar a realidade pra longe. Mas agora, encarando a bagunça de novo, sabia que estava apenas se escondendo da própria preguiça.

Soltou um suspiro longo, resignado, e aumentou um pouco o volume da TV — uma tentativa de transformar a tarefa em pano de fundo. Então se levantou, arrastando os pés até a cozinha.

— Meh... mas que saco. — murmurou, abrindo o armário com força contida e pegando os produtos de limpeza. — Parabéns, Miska, genial! Pedir essa penca de fast-food foi uma ideia brilhante mesmo!

Ela sorriu de canto para si mesma.

— Mas o yakisoba tava na promoção... e tava bom demais, vai. — completou, revirando os olhos com um exagero proposital, como se falasse com uma plateia invisível.

Sem mais delongas, começou.

A água quente escorrendo sobre os pratos, o som do detergente espumando, o atrito dos esfregões — tudo isso se tornou uma espécie de coreografia doméstica. Demorou cerca de vinte minutos, um tempo relativamente pequeno considerando o caos acumulado. Mas, no fim, a pia brilhava. A cozinha respirava de novo.

Ela observou o resultado com um certo orgulho silencioso, como quem volta à superfície depois de um mergulho fundo na desorganização mental e material do cotidiano. O que antes era um cenário de derrota pessoal, agora era quase um oásis de limpeza.

— Huff... é isso aí, eu venci. Mais sorte da próxima vez, Senhora Louças! — murmurou Miska, secando as mãos com um pano de prato qualquer, que ela largou sem muita cerimônia em um canto da cozinha. A batalha havia sido árdua, mas sua dignidade — e a pia — estavam intactas.

E então veio o bocejo. Um daqueles longos, que puxam o cansaço do fundo da alma. Seus olhos começaram a pesar, o corpo inteiro mergulhado numa lassidão quase confortável. Finalmente, o sono dava as caras.

De volta à sala, Miska pegou o controle remoto e desligou a televisão, que agora exibia apenas os créditos lentos de um documentário sombrio sobre desaparecimentos. Ela se virou para ir apagar a luz e seguir para o quarto, pronta para se render ao cansaço. Mas no meio desse gesto rotineiro, algo rasgou o silêncio como uma lâmina de vidro.

Um estouro agudo e cortante.

O som inequívoco de uma janela estilhaçada.

O corpo dela reagiu antes da mente conseguir processar. Todos os sentidos despertaram num segundo, como se alguém tivesse puxado o alarme interno de emergência. Miska congelou por um instante, os olhos arregalados, o estômago afundando. Um frio estranho subiu pela espinha.

Mesmo com o coração martelando dentro do peito, ela se obrigou a andar — passos leves, mas decididos — até as escadas. Com a mão firme no corrimão, preparava-se para subir degrau por degrau, tateando a escuridão em busca de algum sinal do que havia acontecido.

— Q-q-quem tá aí?! — sua voz saiu fraca, engasgada no medo, como se as palavras tropeçassem na garganta antes de escaparem. — O-Olha só…! seja lá quem for... eu vou chamar a políc—

No meio da frase, seus pés pararam. Ela congelou completamente, ainda com a mão na madeira gelada do corrimão. Uma sensação estranham, sufocante, tomou conta de suas costas. Não era só paranoia. Era real. Alguém estava ali.

Ela não precisava virar para saber. Sentia. Uma presença firme, opressora, encostando quase na nuca. Era como se a própria escuridão respirasse atrás dela, esperando que ela se movesse para atacar.

Entretanto, Miska nunca foi muito difícil de se deixar cair sem pelo menos atirar. Haveria resistência.

E então, no exato momento em que Miska sentiu que o invasor prestes a atacá-la se preparava para agir, ela reagiu por puro instinto. Um grito rasgou sua garganta, ao mesmo tempo em que seu punho se ergueu e acertou com força o rosto do homem mascarado que estava atrás dela. O impacto foi brutal — o suficiente para fazê-lo cambalear e desabar no chão com um baque pesado.

Sem hesitar, Miska girou nos calcanhares e correu em direção à porta de entrada, a respiração acelerada, o coração disparado. Tudo o que queria era escapar, encontrar alguém, gritar por ajuda. Mas o homem, ainda atordoado, recuperou-se mais rápido do que ela esperava. Com um movimento repentino, agarrou as pernas de Miska, puxando-as com força.

Ela perdeu o equilíbrio e caiu com violência sobre o piso. O impacto fez seu corpo protestar em dor, mas não havia tempo para pensar. Chutou desesperadamente as mãos que a seguravam, tentando se soltar, mas os dedos dele eram como algemas de ferro.

O invasor conseguiu se erguer, e em poucos segundos estava sobre ela. Com uma ferocidade quase animalesca, agarrou o pescoço de Miska e a ergueu no ar, as mãos apertando sua garganta com força desumana. O ar lhe faltava, os pulmões ardiam, os olhos se arregalavam em pânico. Mas, mesmo pendendo entre a vida e a morte, ela não se entregaria tão fácil.

Cerrando os punhos com tudo que lhe restava de força, Miska desferiu um soco certeiro no braço do agressor. Um grunhido rouco escapou de seus lábios e ele a soltou, permitindo que ela caísse no chão, ofegante e com as mãos no pescoço, tentando puxar o ar de volta aos pulmões.

Ele tentou retaliar de imediato, o punho vindo na direção do rosto dela como uma bala. Mas Miska, guiada pela adrenalina, se esquivou por pouco, o golpe cortando o ar ao lado de sua cabeça. Aproveitando a abertura, ela contra-atacou — um soco rápido, preciso, que acertou em cheio o rosto do homem.

A força do golpe arrancou a máscara dele, que voou pelo ambiente e se partiu em dois pedaços ao atingir o chão.

Miska congelou.

O rosto que agora se revelava à sua frente a atingiu como uma lâmina no peito. Um rosto que ela conhecia melhor do que qualquer outro, mas que nunca esperaria ver ali — naquele contexto, naquela violência. Seus olhos se arregalaram, e o mundo pareceu parar.

— … P-Pai… — sussurrou ela, a voz rouca, embargada.

O corpo de Miska paralisou, tomado por um pavor que não era mais apenas físico, mas emocional, e agora existencial. Era como se seu passado tivesse voltado para engoli-la viva.

Kyran, agora com o rosto descoberto e os olhos frios como pedra, percebeu sua hesitação. Aproveitou a brecha. Avançou sem hesitar e desferiu um soco brutal no peito de Miska. O golpe foi tão forte que a lançou para trás, fazendo seu corpo girar no ar antes de cair pesadamente sobre o tapete da sala.

Miska ergueu os olhos com esforço, ainda ofegante, os músculos protestando em dor. À sua frente, Kyran se aproximava com passos lentos e calculados como um predador que já saboreia a vitória.

Ele limpou o sangue que escorria do nariz com as costas da mão, vestígios de um dos golpes precisos que recebera da própria filha. Em seguida, ergueu os lábios num sorriso enviesado, o olhar repleto de um cinismo cômico.

— Quanto tempo, hein, Miska? Ou melhor... — ele inclinou a cabeça levemente, teatral — devo dizer minha filhinha?

O tom era uma mistura venenosa de ironia e deboche, quase como se aquilo tudo fosse uma brincadeira elaborada. Miska, ainda se recompondo, lutou para ficar de pé. As pernas tremiam, o peito queimava a cada respiração, mas ela não cederia.

— N-não me chama assim... — ela sussurrou com a voz arranhada, o ódio costurando cada sílaba. — O que você quer aqui, seu desgraça—

— Ooopa! — Kyran interrompeu com falsa surpresa, erguendo as mãos como se ela tivesse cometido algum grande pecado. — Olha a boca, querida! Sei que eu não te ensinei bons modos, né? Mas aposto que sua mãezinha fez esse trabalho por mim... ou tô errado?

A última palavra mal saiu da boca dele.

Num estouro de raiva pura, Miska avançou. O punho fechado encontrou o rosto de Kyran com uma força quase sobre humana. O som do impacto foi seco e devastador. Sangue jorrou de novo do nariz dele, agora acompanhado do estalo surdo de dentes quebrando.

Kyran recuou cambaleando, tossindo de dor e cuspindo sangue misturado a fragmentos dentários. Mas Miska já não via mais um pai ali. Só via o inimigo.

— Cala a porra da sua boca.. — ela rosnou, a voz rasgando a garganta como se cada palavra fosse feita de ferro em brasa. Lágrimas escorriam dos olhos dela, mas não eram frágeis — eram como lava, ardente, indomável. — .. Não vem querer ter a cara de pau de falar da minha mãe.. ELA ME TINHA COMO FILHA DIFERENTE DE VOCÊ!

Kyran limpou a boca com um gemido rouco, os olhos queimando de fúria.

— Heh... você realmente não mudou porra nenhuma, não é? Nunca soube... QUANDO CALAR A BOCA! — rugiu ele, avançando em um rompante.

Antes que Miska pudesse reagir, o tapa veio. Rápido, brutal. A mão dele atingiu o rosto dela com força descomunal, e o impacto a lançou contra o sofá, onde caiu como um boneco sem controle, gritando de dor.

Ela levou a mão ao rosto instintivamente, tentando conter a dor pulsante que latejava sob a pele. Mas não gritou mais. Ela apenas olhou para ele.

E no olhar dela.. havia ódio ardente.

— Heh... “Esteve por mim”, que fútil. — zombou Kyran, abrindo os braços como se esperasse aplausos pelo sarcasmo enquanto se aproximava do sofá. A cada passo, seu sorriso torcido se alargava, maligno e satisfeito. — Vocês duas realmente se merecem... A infeliz da sua mãe quase morreu por sua causa, viveu de mimos e carinhos pra agradar uma inútil igual você.. e depois fez o quê?

As palavras dele cortavam o ar como lâminas frias, cada sílaba impregnada de desprezo. Kyran se inclinou lentamente sobre Miska, que ainda estava caída, tentando se reerguer. Seus olhos analisavam o corpo vulnerável da filha com um deleite doentio, se saboreando o sofrimento dela.

— Ah.. sim. Te abandonou igual lixo, você sabe do resto, não é?? E mesmo assim, vocês seguem com essa farsa de amor incondicional... patético. — provocou ele, a voz carregada de um falso tom paternal. — O que foi? Não consegue se levantar? Ah, não se preocupe, papai ajuda! — Estendeu a mão como se fosse puxá-la do sofá, num gesto grotesco de deboche. — Somos Pai e Filha agora, afinal!

Miska apertou os olhos, o rosto contorcido de dor e raiva.

— V-Vai pro inferno, seu doen—

O punho de Kyran encontrou seu rosto com força brutal, interrompendo qualquer palavra, qualquer reação. O impacto foi tão forte que a jogou de lado. Sem hesitar, ele a agarrou pelo pescoço e, num movimento impiedoso, a ergueu e a arremessou contra o chão com violência.

O corpo de Miska atingiu o piso com um som seco, sua respiração tornou-se entrecortada, e gemidos escaparam involuntariamente dos seus lábios. O mundo ao seu redor começava a girar. Tonta, ela tentou arrastar-se, movendo-se aos poucos, como se cada centímetro conquistado fosse uma vitória de guerra.

Mas Kyran não tinha terminado.

Ele avançou, impassível, e desferiu um chute certeiro contra a lateral da cabeça de Miska. O golpe foi como um trovão no crânio, e com ele veio a escuridão. A realidade se diluía ao redor dela, os sons se distorciam, a visão se desfocava.

Logo após o último golpe, Kyran permitiu-se uma pausa. Seu olhar vagueou pelo ambiente até repousar sobre um travesseiro largado no tapete — o mesmo em que Miska se acomodara horas antes, ainda em paz, assistindo televisão. Ele caminhou até o objeto com uma calma perturbadora, e o ergueu como se fosse um troféu ou uma relíquia.

— Puuuxa, olha que coincidência, não é não, filhona? — murmurou, o tom carregado de sarcasmo, enquanto analisava o travesseiro como se fosse uma extensão da própria loucura.

Seu olhar — dilatado, errático, eufórico — voltou-se para Miska, que mal conseguia manter-se consciente no chão.

— Você se lembra? Quando a gente brincava de guerra de travesseiro... você ria tanto. — Ele soltou uma risada curta, seca, como se tentasse fingir afeto, mas fosse incapaz até disso. — Vai lá, pega o seu! Vamos brincar mais uma vez... pelos velhos tempos!

— .. E-Eu.. Eu t-te odeio. — sussurrou Miska com a voz fraca, os lábios trêmulos. Cada sílaba parecia lhe custar um pedaço de energia, mas ainda assim, ela disse. Porque precisava. Porque já não cabia mais dentro dela. — M-Me d-deixa em paz..

Para Kyran, porém, aquelas palavras soaram como um elogio. Um deleite.

— Ah... essas palavras bonitas… Me emocionam. — Ele respondeu com um sorriso torto, quase terno, como se estivesse diante de uma despedida. — Mas não se preocupe, querida. Vai acabar logo, eu prometo… Vai ser rápido.

E então, sem hesitar, ele avançou.

Kyran caiu sobre o corpo da filha e pressionou o travesseiro contra seu rosto com força. Não havia mais nenhuma brincadeira ali, só a violência crua, sádica e metódica. Miska se debateu, lutou com o que sobrou de suas forças já frágeis, mas o corpo não respondia mais como antes. O ar começou a lhe faltar. Seus braços tremiam. As pontas dos dedos buscavam o impossível.

E então, tudo escureceu.

Seus movimentos cessaram.

Kyran permaneceu curvado sobre ela por alguns segundos a mais, apenas para se certificar. Quando julgou que o corpo de Miska estava finalmente imóvel, ergueu o travesseiro com suavidade — quase reverência — e contemplou o rosto da filha inconsciente. Havia lágrimas ainda frescas escorrendo por sua pele pálida. O peito arfava de forma irregular, mas ela estava fora de si.

— Hum, lembro da sua mãe sempre dizer o quão linda você era dormindo… Ao menos em alguma coisa ela, de fato, estava certa sobre você. — sussurrou, e então passou os dedos pelo rosto dela, com uma delicadeza que soaria carinhosa, se não fosse absolutamente monstruosa dentro daquele contexto. Acariciou-lhe os cabelos por um instante, ainda sorrindo como se estivesse embalando um sono tranquilo.

Levantou-se devagar.

Do bolso de sua calça, retirou uma arma. Apontou-a para a cabeça de Miska com a mesma naturalidade com que alguém finalizaria uma tarefa pendente. O sorriso em seu rosto se alargou, agora completo, vitorioso.

E então, como quem deseja selar tudo com um último gracejo, ele murmurou, com a voz clara e sinistra:

— Bons sonhos.





























Kyran estava prestes a apertar o gatilho.

O dedo pressionando o metal com a suavidade de quem saboreia o poder absoluto sobre a vida de alguém. E então, no instante final, algo o paralisou. O som.

Um estrondo violento, cortante, explodiu pelas paredes da casa como se o próprio mundo tivesse rachado ao meio. Veio de trás dele, uma janela arrebentada, estilhaços voando, o inesperado invadindo a narrativa que ele achava controlar.

Kyran girou o corpo instintivamente, olhos arregalados, e ali estava ela:

Mazzi.

A mulher que ele acreditava ter despedaçado para sempre. A mulher que, por amor à filha, agora se tornava mais fera do que humana. Ela havia se lançado pela janela como um míssil de fúria, rompendo vidro e medo, guiada apenas pelo instinto brutal de proteger aquilo que restava de sua vida.

O impacto da queda não a deteve. Ela se ergueu do chão como se fosse feita de pedra e fogo. Sangrando, trêmula, mas invencível naquele momento. Seus olhos, vermelhos e flamejantes, encontraram os de Kyran.

E ela correu.

Kyran reagiu como o predador acuado que era: levantou a arma e disparou três vezes. Um, dois, três tiros. Direcionados às pernas e ao abdômen, na tentativa de pará-la sem matá-la — talvez por sadismo, talvez por controle. Mas mesmo alvejada, Mazzi não parou. Gritou, um grito gutural, bestial, como o rugido de uma criatura que não teme mais a dor, apenas a perda.

Quando colidiu com ele, foi como uma força da natureza. O corpo de Kyran foi empurrado com brutalidade até a cozinha, onde bateu a cabeça contra a quina da pia com um estalo que ecoou como justiça. Atordoado, soltou a arma. Mazzi, mesmo cambaleante, a chutou para longe, eliminando qualquer chance de retaliação.

— AGORA TE ACHEI, DESGRAÇADO! — ela bradou com a voz rasgada, segurando-o pelos ombros e o sacudindo com desespero e ódio. Sua garganta expelia tudo o que ficou guardado por anos: a angústia, a culpa, o medo, a vergonha — tudo aquilo que ele havia plantado.

E não esperou respostas.

Ela o golpeou com os punhos como se cada soco fosse uma sentença. Um trauma reencenado. O rosto de Kyran começou a se desfigurar sob a violência crua dos socos, e cada gota de sangue que escorria de sua boca, nariz e testa parecia carregar o peso de tudo o que ele havia feito — com ela, com Miska, com a vida que ele esmagou sem remorso.

Entretanto, Kyran não aceitaria o karma com tanta facilidade.

Mesmo ensanguentado, com a cabeça latejando da pancada contra a pia, ele reuniu forças num último e desesperado lampejo de resistência. Seus braços se ergueram e agarraram os punhos de Mazzi com força inesperada, interrompendo a sequência de golpes que ela desferia com tanta fúria. Mazzi tentou se desvencilhar, forçou os braços para trás com todas as forças que lhe restavam, mas ele não cedia.

Num movimento rápido e brutal, Kyran puxou Mazzi para si com violência e fez com que suas testas colidissem, o som ressoando pela cozinha como o estalar de um osso. O impacto atordoou Mazzi, que cambaleou, cega por dor momentânea. Kyran aproveitou a brecha e desferiu um soco devastador no rosto dela, fazendo-a girar no ar e cair de lado, sua máscara voando para longe como se fosse símbolo de sua última proteção arrancada à força.

Kyran se ergueu com dificuldade, sangue escorrendo de sua boca, respiração entrecortada, mas os olhos ainda brilhando com aquela insanidade arrogante. Ele se preparava para outro golpe, mas Mazzi, mesmo tonta, reagiu com reflexos afiados. Ela se esquivou por centímetros e, com um chute forte e preciso, lançou Kyran alguns passos para trás, criando espaço entre os dois.

Agora estavam frente a frente, cercados por sangue, estilhaços e lembranças que ardiam como fogo. Marido e mulher, em guerra aberta. Sem espaço para reconciliação. Apenas dois corpos exaustos, alimentados por ódio.

Ambos ofegavam. O suor se misturava com o sangue. As roupas, rasgadas e sujas, pareciam fardas de uma batalha pessoal que vinha se arrastando por anos e que agora exigia um desfecho final.

Kyran sorriu, um sorriso demente, repleto de dentes quebrados e manchados de sangue.

— Mazzi, Mazzi... olha só que beleza, hein? Família reunida! Igualzinho aqueles jantares que você tanto sonhava... — Ele riu, mas a tosse o cortou no meio da frase, cuspindo mais sangue no chão.

— Seu.. seu.. demônio.. — murmurou, sua voz pesada como chumbo. O ódio era tanto que seus pensamentos vinham aos pedaços, mas não importava. Ela não precisava pensar. Só precisava terminar.

Kyran, com calma teatral, virou-se e pegou uma faca que repousava sobre o balcão da cozinha. Ergueu o objeto lentamente, como se quisesse que Mazzi visse o reflexo dela mesma na lâmina.

— Ora.. mas por que? Eu estou fazendo apenas o que eu acho que deveria ser feito há muito tempo, Mazzi. — A voz dele estava carregada de um rancor estranho, distorcido, quase infantil. — Você, por algum acaso, tem noção do que é perder tudo o que você tinha por causa de um simples detalhe?

— Eu vou matar você. — Mazzi falou baixo, direto, como quem decreta um veredicto.

— Ohooo! Calma, madame... — Kyran ergueu as mãos, zombando. — Vou considerar isso como um “não”. Que surpresa, não é?

Ele riu de novo, se preparando para continuar com sua teatralidade perversa. Mas Mazzi já não escutava. Para ela, cada palavra dele era ruído.

Ela avançou sem aviso.

O ataque foi feroz, impiedoso. Kyran tentou bloquear, recuar, mas a exaustão cobrava seu preço. Mazzi o acertou no rosto, socos duros e erráticos, cada um fazendo sua cabeça virar de um lado para o outro como se fosse um boneco. O sangue jorrava, e o rosto dele começava a se desfigurar sob os golpes implacáveis.

Mas Kyran ainda segurava a faca. E mesmo cambaleante, contra-atacou.

Ele conseguiu desferir um cortes rápidos, certeiros, que rasgaram as laterais dos braços de Mazzi. Ela gritava, mas não parava. Mais um corte no ombro, outro arranhando o lado do abdômen — Kyran lutava como um animal encurralado.

A sequência de golpes era selvagem, desgovernada — pura violência alimentada por anos de ódio e cicatrizes mal curadas. Mas nem Mazzi, nem Kyran cederiam facilmente. Sangue escorria de ambos, tingindo o chão da cozinha como uma tela grotesca, e ainda assim, os dois persistiam como predadores famintos lutando pela última mordida.

Porém, no fim, foi Kyran quem encontrou a brecha.

Com um movimento abrupto, ele agarrou o pescoço de Mazzi com ambas as mãos, os dedos cravando-se em sua pele como garras. Num impulso brutal, a jogou contra a pia de aço, o som de ossos e metal colidindo reverberando como um trovão. Mazzi gritou, mas antes que pudesse reagir, sentiu a lâmina da faca rasgar-lhe o abdômen.

Uma, duas, três vezes — facadas profundas e cruéis. Kyran cravava a lâmina com toda a força que restava em seus braços trêmulos, cada golpe rasgando carne e arrancando dela gritos de dor que se transformavam em sangue expelido pelos lábios. Mazzi se debatia, tentava desesperadamente empurrá-lo, mas ele a mantinha presa, esmagando seu corpo contra a pia, como se quisesse fundi-la ao aço frio.

Kyran se aproximou de seu ouvido, a respiração arfante e o corpo tremendo com a intensidade da cena.

— Fique... tranquila... — ele arfava entre facadas, a voz quebrada e quase incoerente, como se delirasse. — Logo isso acaba... você vai ficar do lado dela... como sempre quis... simetria... Mazzi... tudo simétrico…!

E então, mais uma facada, a mais profunda de todas. Mazzi vomitou sangue com violência, o líquido escuro jorrando de sua boca e tingindo ambos de vermelho. Ela mal conseguia respirar, mas algo nele — nas palavras, naquele delírio insano sobre “simetria” — fez sua mente reagir de forma instintiva. O ódio, agora, não vinha mais do corpo; era puro espírito, sobrevivência bruta.

Mazzi buscou ao redor, tateando com as mãos em meio ao sangue e ao caos, até sentir o frio de outra lâmina. No escorredor de pratos, uma faca menor, esquecida — e agora, sua sobrevivência.

Os dedos sangrando agarraram o cabo com força. Com o último fiapo de energia que ainda lhe restava, ela virou o rosto para Kyran e olhou nos olhos dele — olhos tomados pela insanidade.

— VAI PRO INFERNO! — ela gritou, a voz reverberando como um trovão.

E então, cravou a faca diretamente no olho de Kyran.

O mundo pareceu parar por um segundo.

Kyran soltou um grito monstruoso — uma explosão de dor que não parecia humana. Era um urro primitivo, rasgado, cheio de agonia e terror. Ele cambaleou para trás, levando as mãos ao rosto, de onde agora jorrava sangue espesso e quente, como um rio descontrolado. Seu olho, arrancado quase por completo, havia se tornado apenas uma cavidade escura e pulsante. E agora, tudo que lhe restava era a dor. Dor que ele nunca imaginou sentir, e que, talvez, nem achasse merecer.

Desesperado, ele desferiu um soco violento no rosto de Mazzi, mais por reflexo do que por estratégia. Ela foi arremessada para longe, seu corpo caindo com um baque surdo, os ossos protestando, a respiração falhando.

Mazzi sentia tudo apagar. A dor, o sangue escorrendo, o frio se espalhando pelas extremidades. Seu corpo estava no limite, e cada tentativa de se mover parecia uma afronta à própria vida.

Mas então, algo brilhou em sua visão turva.

Lá, entre a penumbra e os restos do combate, ela viu. Uma arma á exatos 7 metros de distância.

A mesma arma que havia chutado para longe no início de tudo.

Era a mesma arma que ela havia chutado para longe quando tudo começou.

Ela sabia: era sua única chance. Cada centímetro até aquela arma era uma batalha contra a própria morte. Mas ela precisava alcançá-la. Por si. Pela filha.

Mazzi rastejava. Não havia mais espaço para heroísmo ou glória, só o arrastar desesperado de alguém que se recusava a morrer. Cada centímetro conquistado em direção à arma era pago com dor e mais dor, como se seu próprio corpo cobrasse juros altíssimos por cada tentativa de continuar viva.

O chão sob ela parecia girar, e cada movimento arrancava mais sangue de suas feridas, deixando um rastro escarlate. A respiração vinha aos trancos, entrecortada, e o sangue que escorria da testa embaçava sua visão, turvando o mundo ao redor. Mas a arma estava ali, ao alcance. Tão próxima que ela quase podia sentir o peso frio do metal em sua mão.

Ela estendeu o braço trêmulo.

Foi então que a dor veio como uma explosão súbita, bestial, e Mazzi gritou. Um grito rasgado, nascido de um sofrimento que ela jamais havia sentido. Algo havia pressionado sua perna com uma força absurda, quase destrutiva, e ela ouviu — sentiu — o estalo dos ossos, como galhos secos partindo sob o peso de algo muito maior.

E ali estava ele.

Kyran.

Sobrevivente da morte, moldado pelo ódio. Seu rosto era um retrato do inferno: um olho faltando, substituído por uma torrente de sangue escorrendo da cavidade vazia; a faca ainda firmemente empunhada; o corpo cambaleante e encharcado de sangue, mas com uma energia violenta, como se o ódio puro o mantivesse de pé.

— Você vai pro inferno junto comigo... — rosnou Kyran entre os dentes cerrados, a voz rouca e carregada de rancor, enquanto pressionava mais o pé contra a perna de Mazzi. Ela gemeu, o som da dor misturado com a frustração e a raiva de ainda estar à mercê dele.

Kyran ergueu a faca, mirando o golpe final.

Mas Mazzi, movida por puro instinto de sobrevivência, esticou o braço com violência e agarrou a arma. Suas mãos tremiam, mas não vacilaram. Ela apontou a arma direto para o peito de Kyran e, sem hesitar, apertou o gatilho.

Três vezes.

As balas o atingiram com precisão cirúrgica, uma sequência certeira que perfurou o tórax de Kyran como se quisesse arrancar, de uma vez por todas, toda a maldade que residia ali dentro.

O impacto fez com que ele recuasse, atônito, o olhar perdido, como se só naquele instante tivesse percebido que, sim, o fim chegara. A faca caiu da mão dele, batendo no chão com um som metálico e final.

Ele olhou para o próprio peito, viu os buracos abertos pela arma de Mazzi, o sangue escorrendo em rios. Seus joelhos cederam. Kyran caiu, como um corpo que finalmente cansa de carregar tanto ódio. Mas ele não estava morto. Ainda não. Apenas destruído. Mortalmente ferido, imóvel, e pela primeira vez impotente.

Mazzi também mal podia se mover.

Mas ela não permitiria que ele partisse com dignidade. Ainda havia uma última coisa a fazer. Algo que não era justiça, nem vingança, era simplesmente necessário.

A respiração de Mazzi era um sussurro áspero, um lamento. Cada passo em direção ao corpo de Kyran parecia desafiar as próprias leis da física — ela já não andava, apenas resistia à queda. Seus pés deslizavam pelo chão ensanguentado, e seu corpo se sustentava por pura vontade, como se sua alma se recusasse a ceder, mesmo que a carne estivesse à beira do colapso.

Ali, à sua frente, jazia Kyran. Ainda vivo, mas à beira da morte — o rosto desfigurado pela dor e pela derrota, os olhos opacos refletindo o horror de quem finalmente viu o monstro que se tornou. Ao encará-la, ele forçou um sorriso torto, manchado de sangue. Uma risada rouca, patética, escapou de sua garganta rasgada, seguida por tosses violentas que mancharam seus lábios de vermelho escuro.

— … Olha só pra você… — murmurou, com a voz de um homem que já não tinha mais nada a perder. — Veja a situação deplorável em que você se meteu… Eu perdi tudo, Mazzi. O emprego, você… eu mesmo. — Ele soltou uma risada vazia, mais um espasmo de desespero do que qualquer outra coisa. — E no fim… o que sobrou?

Mazzi manteve-se calada, imóvel, como se absorvesse aquelas palavras apenas para enterrá-las junto com ele. Lentamente, ergueu a arma, mirando-a na cabeça de Kyran. Seu dedo tremia no gatilho, mas seus olhos estavam firmes. Havia algo de frio, inexorável, naquele olhar, como o julgamento de alguém que já ultrapassou todos os limites de dor e culpa.

Foi então que o som das sirenes começou a ecoar ao longe — primeiro um ruído quase imperceptível, depois um coro crescente que preenchia o silêncio da casa com a urgência inevitável da justiça ou da condenação. Estavam cercados. Alguém chamara a polícia.

Mazzi desviou o olhar brevemente, apenas para perceber o que já suspeitava: Miska não estava mais ali. Não havia corpo no chão. Um alívio seco e cortante a percorreu. “Ela sobreviveu…” pensou, permitindo-se, por um segundo, respirar.

— Foi ela, não foi? — sussurrou, mais para si do que para qualquer outro.

Ao perceber que as viaturas se aproximavam, Kyran riu de novo, um riso fraco, como o último lampejo de um homem que tenta, em vão, manter algum controle sobre o destino.

— Olha só… você acha que venceu… mas está com sangue até os cotovelos. A polícia vai entrar por aquela porta a qualquer momento e você vai perder tudo também. Você vai cair, Mazzi. E tudo isso… — ele tossiu novamente, cuspindo mais sangue — tudo isso por causa dela. Vai me dizer que… ainda acha que vale a pena protegê-la?

Silêncio. Apenas o som das sirenes, cada vez mais próximo.

Mazzi olhou nos olhos de Kyran, olhos que já não tinham humanidade. E então, com a calma de quem não tem mais dúvidas a enfrentar, ela respondeu:

— … Sim.

O disparo cortou o ar como um veredito. A bala entrou pelo crânio de Kyran e silenciou tudo. Não houve grito, nem reação — apenas o som seco do corpo tombando, finalmente sem vida.

A arma escorregou das mãos de Mazzi. E então, como se seu corpo tivesse apenas aguardado esse momento para desistir, sua alma desabou. As dores vieram como uma avalanche: cortes, fraturas, o sangue perdido, o cansaço avassalador — tudo a atingiu ao mesmo tempo, cobrando seu preço.

Mazzi, cambaleante e à beira do colapso, começou a andar pela sala destruída da casa de Miska. Cada passo era um desafio, cada respiração, uma luta contra o próprio corpo que teimava em fraquejar. O ambiente ao redor parecia um campo de guerra — vidro estilhaçado por todos os cantos, manchas de sangue marcando o chão e memórias despedaçadas.

Mas Mazzi congelou ao chegar perto da porta.

Ali, em pé, estava Miska.

As duas se entreolharam como se o tempo tivesse parado, e por um instante, todo o caos ao redor deixou de existir. O olhar de Miska estava em choque — seus olhos marejados, o rosto ferido e o pescoço marcado por hematomas profundos, lembranças viscerais da violência que acabara de enfrentar. Mas ela estava viva. Respirando. E, acima de tudo, diante da mulher que há anos era apenas um espectro em sua memória.

Mazzi sentiu o ar prender nos pulmões. O rosto da filha era o mesmo, mas ao mesmo tempo completamente diferente. Já não era mais a menina que ela deixara aos 14 anos. Era uma mulher — marcada, endurecida, mas ainda com o mesmo brilho nos olhos, ainda com aquela fagulha que, por anos, Mazzi só pôde imaginar.

Agora estavam ali, frente a frente. Mãe e filha. Como duas sobreviventes de um mundo que tentou destruí-las por dentro e por fora.

Miska não chorava de decepção, nem de raiva. Eram lágrimas de um reencontro impossível, lágrimas de alguém que, até aquele momento, sequer sabia se teria a chance de dizer algo. Palavras falharam. O silêncio entre elas dizia mais do que qualquer frase poderia.

Mazzi, por sua vez, já não carregava vergonha. Já não havia máscara, nem medo, nem fuga. Tudo que fizera, tudo que se tornara — ela aceitava. E naquela aceitação havia algo puro, uma entrega. Pois no fim de tudo, no meio de todo aquele sangue e caos, tudo foi por ela. Por Miska.

O sangue escorria de Mazzi, mas não era esse o sangue que importava. O sangue que de fato a ligava à filha jamais se perdeu.

Mazzi forçou um sorriso fraco, um sorriso que carregava dor, mas também alívio, e soltou uma risada curta e rouca, como se ainda tentasse manter um pouco de leveza, mesmo que fosse só para Miska.

— … Então você tá bem, hein? — disse ela, com um tom irônico, mas tão maternal que por um instante, a dor sumiu.

Miska abriu a boca, tentando responder, mas nenhuma palavra veio. Tudo parecia atravessado, preso na garganta, como se o tempo perdido exigisse silêncio. Era impossível condensar tudo o que sentia em uma frase — alívio, saudade, medo, amor. Tudo explodindo de uma só vez.

Foi então que Mazzi percebeu as luzes azuis e vermelhas refletindo nos cacos de vidro ao seu redor. O som das sirenes crescia, e as sombras dos policiais armados se projetavam nas paredes. Eles estavam cercados.

Mazzi olhou uma última vez para a filha e, com um sorriso mais tênue e os olhos marejados, murmurou:

— Que alívio, filhota…

As lágrimas de Mazzi, quentes e silenciosas, escorreram pelo seu rosto e se misturaram ao sangue que já marcava sua pele, lágrimas e sangue, dor e amor, finalmente indistinguíveis. Era como se tudo que ela havia sentido, perdido e protegido estivesse se dissolvendo ali, naquela fusão crua e inevitável.

E então, sem mais forças, Mazzi caiu.

Desabou nos braços de Miska, que a segurou instintivamente, como quem tenta amparar o que o tempo, a violência e o destino tentaram arrancar dela. O corpo de Mazzi, ferido, pesado e ainda quente, repousava agora junto ao de sua filha, como se aquela entrega fosse o último gesto de redenção.

Miska não disse nada. As palavras eram inúteis. Ela apenas a abraçou, apertando-a com força, desesperada para que aquele instante durasse mais do que a dor permitia, mais do que a realidade permitia. Lágrimas escorriam dos seus olhos sem controle — o choro de quem, mesmo depois de tudo, ainda amava.

Naquele abraço silencioso, Mazzi encontrou sua paz.

Os policiais entraram.


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